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Os mártires coreanos e o poder do testemunho dos leigos

Durante a santa missa do dia 16 de agosto, no icônico Portão de Gwanghwamun, em Seul, o papa Francisco beatificou 124 mártires coreanos. Cerca de 800 mil pessoas estavam presentes na celebração, de acordo com o Vaticano. É um número impressionante por si só, mas fica ainda mais impressionante quando consideramos que os católicos representam apenas 10% dos 50 milhões de habitantes da Coreia do Sul.

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O que mais me impressionou, no entanto, foi saber de que maneira a fé católica chegou à Coreia: os primeiros missionários do país não eram membros do clero. Eram leigos!Este fato foi mencionado quase entre parênteses durante uma apresentação de TV. Para mim, porém, aquela informação não foi um elemento trivial para preencher o tempo de programação. Foi um verdadeiro chamado a despertar! Até aquele momento, eu achava que a Coreia, assim como a maior parte do resto do Oriente, tinha sido evangelizada por religiosos enviados pelas suas ordens a trabalhar em territórios de missão.Só que fé católica não chegou desse jeito à Coreia. No século XVII, membros da nobreza coreana entraram em contato com o catolicismo durante viagens à China e ao Japão. A fé já tinha criado raízes em ambos aqueles países. Com base no que tinham observado e aprendido sobre o catolicismo em livros escritos em chinês, aqueles nobres coreanos tentaram praticar essa mesma fé recém-descoberta ao retornarem à Coreia. Um deles, Yi Seung-hun, foi batizado em Pequim e voltou para casa em 1784 para fundar uma comunidade cristã. Este é o evento que marca o estabelecimento da Igreja católica na Coreia.Sabemos, pelas centenas de mártires coreanos, que o catolicismo não teve um começo fácil no país. O governo, influenciado pela ideologia do neoconfucionismo, se opôs à fé cristã. A crença católica de que todos os seres humanos possuem dignidade igual era vista como uma ameaça para o sistema hierárquico social. Além disso, era considerado crime ter contato com estrangeiros. Esta lei significava, portanto, que as comunicações entre os católicos coreanos e o vigário apostólico de Pequim eram nada menos que “criminosas”.

O resto, como se diz, é história. Estima-se que cerca de 10.000 católicos foram martirizados em uma perseguição que durou mais de 100 anos, até que, em 1895, a liberdade de religião foi reconhecida oficialmente na Coreia.

Voltemos à missa papal do início desta semana, com 800 mil pessoas presentes. Consideremos também os mais de 50 mil jovens de 23 países asiáticos que se reuniram no Castelo de Haemi para a missa de encerramento da sexta Jornada Asiática da Juventude. Pensemos nas boas-vindas excepcionalmente calorosas que o papa Francisco recebeu em sua chegada à Coreia do Sul e em cada parada ao longo da visita.

Tudo isto foi possível graças a um grupo de coreanos leigos, que, muitos anos atrás, se sentiram curiosos a respeito da fé católica e depois se apaixonaram por ela.

O Santo Padre resumiu tudo muito bem na homilia da missa em que beatificou Paulo Yun Ji-chung e seus 123 companheiros mártires:

“A vitória dos mártires, seu testemunho do poder do amor de Deus, continua a dar frutos até hoje na Coreia, na Igreja que cresceu a partir do seu sacrifício. A nossa celebração de Paulo e Companheiros nos proporciona a oportunidade de voltar aos primeiros momentos, à infância, por assim dizer, da Igreja na Coreia. Ela convida vocês, católicos da Coreia, a recordar as grandes coisas que Deus operou nesta terra e a valorizar o legado de fé e de caridade que lhes foi confiado pelos seus antepassados”.

A história do catolicismo na Coreia é um testemunho do poder que os leigos têm de difundir a fé e de influenciar o mundo ao seu redor. É também exemplo de como os leigos e o clero podem e devem trabalhar em parceria. Yi Seung-hun e seus contemporâneos tinham alternativas: eles podiam ter fundado a sua própria seita, alguma ramificação do catolicismo sem os ensinamentos “problemáticos” que lhes valeriam punição, perseguição e morte nas mãos do governo coreano. Olhem para todas as seitas do cristianismo de hoje, cujos fundadores adotaram alguns aspectos do catolicismo e rejeitaram outros. Os mártires coreanos não: eles arriscaram a vida para trabalhar sob a orientação e em cooperação com a hierarquia católica, para levar a Igreja verdadeira, una, santa, católica e apostólica à sua terra natal.

Os acontecimentos que envolveram a visita do papa Francisco à Coreia devem nos inspirar a dar graças a Deus pelos primeiros católicos daquele país, que sacrificaram tudo a fim de garantir que a fé católica se enraizasse por lá. Suas ações também devem nos incitar a fazer algumas perguntas sérias sobre como nós, em nosso estado de vida como clérigos, religiosos ou leigos, estamos trabalhando para levar a plenitude da fé católica aos outros.

Se um pequeno grupo de leigos católicos conseguiu reunir 800.000 pessoas para uma missa com o papa, imagine o que 1 bilhão e 200 milhões de católicos podem fazer no mundo inteiro para fortalecer e edificar a Igreja!

Fonte: Aletéia

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